quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Calvinismo x Arminianismo – Um apelo a tolerância e a moderação

      Ultimamente tenho visto um crescente debate sobre o calvinismo e o arminianismo dentro da nossa querida Assembleia de Deus, motivada pelo número de pastores e líderes assembleianos que têm abraçado a fé reformada (calvinismo). Toda discussão é bem vinda quando há moderação e está centrada nos ensinos da Palavra de Deus. O que ocorre todavia é que, infelizmente, alguns pastores e obreiros motivados por um “zelo religioso” (ou melhor, uma militância desprovida de razão) parecem querer promover uma verdadeira “caça às bruxas” aos pastores reformados dentro da Assembleia de Deus, repetindo velhos erros que acontecerem em outros períodos ao longo da história da Igreja cristã, dentre os quais podemos citar o que aconteceu aos irmãos que abraçaram a fé pentecostal no início do movimento pentecostal no Brasil e no mundo.
     Infelizmente, o espaço não me permite fazer uma detalhada análise destes dois sistemas teológicos (calvinismo e arminianismo) que tentam explicar a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana em relação à salvação. Historicamente, as igrejas Reformadas e Presbiterianas, além de muitas igrejas Batistas, defendem o calvinismo. As igrejas Metodistas, Luteranas, muitas igrejas Batistas e a maioria das igrejas Pentecostais defendem o arminianismo. Um exemplo de tolerância a ser destacado, talvez por terem aprendido com os erros do passado, seja o da Igreja Batista, onde calvinistas e arminianos se respeitam mutuamente e convivem pacificamente dentro da mesma denominação.
     Por experiência própria, posso dizer que a causa das intermináveis discussões e exageros se concentram exatamente na falta de moderação e de conhecimento concreto de ambos os sistemas (principalmente do calvinismo), além da incapacidade de separar os moderados dos extremados. É muito recomendável a leitura do livro "Eleitos, mas livres - Uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio” de Norman Geisler, que demonstra de forma clara que há mais pontos em comum entre calvinistas moderados e arminianos moderados do que pontos discordantes. 
     Nunca é demais recordar que os extremos são sempre perigosos. Norman Geisler faz uma distinção entre calvinistas moderados e calvinistas extremados, embora nem todos calvinistas gostem desta distinção. Para Geisler um "calvinista extremado é alguém que é mais calvinista do que João Calvino (1509-1564), de cujos ensinos vem o termo.”[1]
     Como acontece com outras correntes teológicas, as crenças arminianas não são todas iguais ou homogêneas. Os ensinos de Jacó Armínio foram sistematizados e desenvolvidos por inúmeros sucessores e profundamente alterados por outros. Embora todos eles sejam considerados arminianos, eles divergem em alguns pontos cruciais, tal qual acontece entre os calvinistas (moderados e extremados).
      Um estudo mais detalhado de ambos sistemas teológicos nos mostra que os moderados se opõe aos seus extremos.  Existem mais pontos divergentes entre um calvinista moderado e um calvinista extremado (hiper-calvinista), assim como entre um arminiano moderado e um arminiano extremado, do que entre os moderados de ambos sistemas teológicos. Assim sendo, a moderação é algo a ser buscada entre os servos de Deus, que desejam acima de tudo fazer a vontade de Deus e se manterem fiéis ao ensino da Palavra de Deus. 
      Norman Geisler, um calvinista moderado, faz importantes considerações:

     “Os calvinistas moderados e os arminianos moderados, que representam a grande maioria da cristandade, têm muito em comum contra os extremos das duas posições. De fato, o próprio John Wesley (arminiano moderado) disse que estava apenas a ‘um triz de Calvino’. [...] O próprio Calvino rejeitou algumas ideias do calvinismo extremado posterior (e.g., a expiação limitada).” [2]

     A ideia de que a Assembleia de Deus deve manter o seu “sistema arminiano” a todo custo é um erro e um perigo a unidade da nossa denominação. Os moderados de ambos os sistemas se destacam exatamente pelo desejo de crescer no conhecimento do Senhor Jesus e por considerarem em alta estima a ortodoxia da Palavra de Deus. Pessoalmente, assim como tantos outros assembleianos, tenho sido grandemente abençoado através da vida de grandes escritores e pregadores reformados, dentre os quais temos alguns pentecostais, como também de escritores arminianos. Dentre os escritores reformados (calvinistas) destacamos alguns dos mais conhecidos, como: João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, J. I. Packer, Matthew Henry, John Stott, John Piper, Donald A. Carson, Mark Dever, John McArthur, Charles Colson, Nancy Pearcey, Norman Geisler, Charles C. Ryrie, Hernandes Dias Lopes, Renato Vargens, Ronaldo Lidório, dentre outros. Entre os arminianos, alguns dos mais conhecidos são: Jacó Armínio, A. W. Tozer, C. S. Lewis, John Wesley, Stanley M. Horton, Orlando Boyer, D. L. Moody, R. A. Torrey, Billy Sunday, E. M. Bounds, Campbell Morgan, Samuel Chadwick, Leonard Ravenhill, David Wilkerson, Esequias Soares, Antonio Gilberto, Paulo Romeiro e outros.
     Diante de toda a polêmica e discussões intermináveis que o assunto possa provocar, a atitude que devemos tomar neste caso é de moderação e tolerância, como bem expressou Richard Baxter: "No necessário, unidade; nas controvérsias, liberdade; e em todas coisas, o amor”. Podemos encontrar entre os moderados de ambos sistemas teológicos muitos servos de Deus respeitados e que têm sido instrumentos de Deus para edificação dos crentes na pregação fiel da Palavra de Deus. Me admira a posição equilibrada de ambos os lados dentro da Assembleia de Deus, como a do Pr. Geremias do Couto (calvinista moderado) e do Pr. Ciro Sanches Zibordi (arminiano moderado).
    Penso que a Assembleia de Deus não perde a sua identidade com as posições teológicas moderadas apresentadas acima, mas sim com as heresias destruidoras que sutilmente têm se introduzido em nossas igrejas, como por exemplo:
* O semipelagianismo – é a ideia de que precisamos fazer qualquer coisa para ajudarmos a Deus e merecer a salvação e as suas bênçãos. O semipelagianismo foi o ensino do monge francês João Cassiano segundo o qual a humanidade é manchada pelo pecado, mas não ao extremo de não poder cooperar com a graça de Deus, através de seus próprios esforços. A salvação começaria com a boa iniciativa do coração do homem em direção a Deus. O homem seria salvo pela graça, mas não só pela graça, visto que o homem teria de dar o primeiro passo e então Deus irá completar o processo de salvação do homem. Este falso ensino nega a depravação total do homem e a eficácia do sacrifício vicário de Cristo (Rm 3), como também a doutrina da graça (Ef 2). Este ensino foi considerado herético pela igreja cristã no Sínodo de Orange (529 d.C.). O semipelagianismo deriva de outro falso ensino conhecido como pelagianismo.
* A teologia da prosperidade – que é na verdade um outro evangelho (Gl 1.6,7). Um falso evangelho onde o homem é o centro e não Deus; onde Deus está a serviço do homem, e não o homem a serviço de Deus. Confunde a prosperidade com salvação e oferece riqueza na terra ao invés de bem-aventuranças no céu. Troca a cruz pela riqueza e a salvação pelo sucesso, substituindo as mansões celestiais pelas mansões na terra e oferecendo um paraíso na terra junto a Mamom ao invés de uma eternidade no céu junto a Cristo. Muitos obreiros gananciosos têm sido atraídos e iludidos por este falso evangelho, levando muitas pessoas a se afastarem do verdadeiro evangelho de Cristo.
* O pragmatismo moderno – segundo o pragmatismo “se algo está funcionando é verdadeiro”. Assim, as experiências, e não mais a Palavra de Deus, têm sido usadas para determinar se algo é verdadeiro ou não. Com isto, ensinos e ideologias nocivas se multiplicam no seio da igreja com a falsa pretensão de serem verdadeiros, pois dizem, “se está dando certo é verdadeiro” ou, em outras palavras, “Deus está abençoando”. Infelizmente, muitos evangélicos têm abandonado a prática do discernimento, aceitando todo tipo de ensinos antibíblicos que causam confusão e condescendência com o erro.
* As superstições e superficialidade do neopentecostalismo – os pioneiros do movimento pentecostal e da Assembleia de Deus distinguiram-se pela moderação e o equilíbrio entre o ensino bíblico e as experiências pentecostais. William J. Seymor, durante o grande avivamento da Rua Azuza declarou: "Nós estamos medindo todas as coisas pela Palavra de Deus, cada experiência deve de ser medida pela Bíblia". Porém, com o passar dos anos, muitos pastores, seduzidos pelo inchaço (não crescimento) das igrejas neopentecostais, começaram a abandonar a fiel pregação da Palavra de Deus, pregando aquilo que o povo quer ouvir e não o que precisa ouvir. Adotaram práticas espúrias e supersticiosas com o fim de obterem um “crescimento” rápido de suas igrejas. Vemos se popularizar práticas supersticiosas como o uso do sal grosso, do óleo ungido, da rosa ungida, do copo de água em cima do rádio ou da TV, além das práticas judaizantes no meio dos evangélicos. A doutrina da graça tem sido atacada e vilipendiada através das indulgências modernas, onde as bênçãos de Deus são vendidas por homens escrupulosos que transformaram a graça de Deus em fonte de lucro (Judas 1.4-16).

     Durante a Reforma Protestante houve vários pontos discordantes entre os reformadores, mas o que prevaleceu foram os pontos concordantes, dentre eles o reconhecimento de que precisamos voltar a Palavra de Deus, nossa única regra de fé e prática. Que Deus nos ajude!

Por Pr. Paulo Henrique P. Cunha
Ministro do Evangelho desde 2000
Foi missionário na Índia, Portugal e atualmente na Itália.
Blog: www.seara-italia.blogspot.com
-----------------------------
[1] - GEISLER, Norman L. Eleitos, mas livres. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 63.
[2] - GEISLER, Norman L. Eleitos, mas livres. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 151.

Nenhum comentário:

Postar um comentário