segunda-feira, 19 de maio de 2014

Os verdadeiros santos

    O fato de se apoiar na tradição humana (doutrina de homens - Mt 15.9; Mc 7.7; Ef 4.14) e ignorar o que a Bíblia diz a respeito dos verdadeiros santos têm levado muitas pessoas ao erro. Um dos marcos da reforma Protestante foi o resgate da pureza do Evangelho e o retorno às Escrituras (Bíblia). Assim, a autoridade suprema que define os verdadeiros santos é a Palavra de Deus, não a decisão de qualquer pessoa, concílio ou igreja.
     Um dos textos bíblicos onde podemos, de forma clara e simples, entender quem são os verdadeiros santos é 1Coríntios 1.1-2, que diz: “Paulo (chamado apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus) e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso”.  Como se pode ver claramente neste texto e em tantos outros (At 9.13,32; 26.10; Rm 8.27; 12.13; 15.25,26; Fp 4.21; Ef 4.12; 5.3, etc.) o nome mais comumente usado para o crente no Novo Testamento é “santo”.  O Novo Testamento, em parte alguma, apresenta os santos como pessoas especialmente devotas ou perfeitas no âmbito da igreja. Não há nenhuma evidência no Novo Testamento que somente aqueles que demonstram grandes dádivas ou realizações podem ser chamados de santos. O apóstolo Paulo chama os crentes de Corinto de “santos”, o que não significa que eles eram perfeitos, pois podemos ver que aqueles crentes possuíam várias e graves falhas (1Co 1.10,11; 3.1,3; 5.1,2).
     A palavra “santo” no grego do Novo Testamento é “hagios”, que possuía originalmente um conceito de algo pertencente ao culto a Deus, sendo usado para descrever um templo ou sacrifício, indicando aquilo que era consagrado ou dedicado a Deus. O mesmo conceito pode ser visto no Antigo Testamento onde coisas, lugares, datas, animais e até pessoas foram santificados, isto é, consagrados a propósitos sagrados (Gn 2.3; Ex 13.2; 20.8; 28.2; 40.10-13; Lv 25.10; 23.2; Nm 18.17; Dt 5.12). Este aspecto indicava a posse de Deus, bem como a dedicação e separação destes elementos para o serviço de Deus.
      A palavra “hagios” deriva da mesma raiz da palavra “santificado” (gr. “hagiázō”), transmitindo a ideia de algo separado para Deus. A ideia dominante em toda a Bíblia mostra que santos são aqueles que foram separados (tirados) do pecado, e foram colocados à parte para servir inteiramente a Deus. O apóstolo Paulo afirma que os crentes são santificados em Cristo Jesus. Contrariamente ao que muitos pensam ser santo, os crentes de Corinto eram santos aos olhos de Deus, apesar de ainda viverem uma vida pecaminosa e da doutrina distorcida. Eles não eram santos em si mesmos, mas foram “santificados em Cristo Jesus” (1Co 1.2), que os salvou da corrupção, da perdição e os remiu (comprou) para si pelo preço de seu sangue e de sua vida. Eram pessoas normais com suas falhas, erros e pecados, mas que através da graça (favor imerecido) de Deus foram chamados para viver uma vida consagrada (dedicada) a Deus e separada do pecado. Ser santo é estar em Cristo!  Em 1 Coríntios 6.11, Paulo mostra esta obra de santificação, como algo já realizado em nome de Jesus e pelo Espírito Santo e não algo que precisa ainda ser alcançado. Por esta razão, Paulo podia escrever aos crentes de diversas igrejas e chamá-los de santos (1Co 1.2; 2Co 1.2; Ef 1.1; Fp 1.1; Cl 1.2). Como esclarece Merril C. Tenney, “hagios, quando aplicado aos cristãos, significa colocado à parte para Deus, reservado para seu louvor e serviço. Os crentes são feitos santos pela obra salvadora de Cristo na cruz, que os separou desse presente mundo mau, e os transportou para o reino do querido Filho de Deus (Cl 1.13). Eles são feitos santos continuamente pela obra do Espírito dentro deles, que os capacita a responder às convocações do NT para viver em justiça e pureza”.[1]
      A santificação é a operação contínua do Espírito Santo na vida do crente. É um processo contínuo que começa bem no início da vida cristã, no momento da conversão (quando o crente é santificado em Cristo – santificação posicional), envolvendo uma mudança moral, e que continua ao longo de toda a vida cristã (santificação progressiva). Durante a Idade Média se popularizou a ideia de que para se viver uma vida de santidade devia-se viver recluso, afastado da vida comunitária e das atividades comuns, no entanto tal ideia não está de acordo com os ensinos de Jesus (Mt 5.14-16).  Quando o apóstolo Paulo chama os cristãos de santos (“hagios”), ele está dizendo que o crente é uma pessoa diferente das outras porque pertence a Deus e está a seu serviço. Barclay destaca que “esta diferença não deve ser marcada pela retirada da vida comunitária e das atividades comuns, mas mostrando na vivência diária uma diferença de qualidade e caráter que irá caracterizá-lo como um homem de Deus". [2]
     Assim, ser santo não significa um cristão especialmente piedoso ou dedicado que tenha sido canonizado por um concílio eclesiástico. Os crentes são santos, não por canonização humana, mas por operação divina. Os verdadeiros santos são aqueles que foram chamados por Deus e santificados em Cristo Jesus e, ainda que sujeitos ao pecado (1Jo 1.8) enquanto na carne (corpo físico), não vivem na prática continua do pecado (1Jo 5.18), buscando viver para Deus e no seu serviço (Rm 12.1,2).

Por Pr. Paulo Henrique P. Cunha

[1] TENNEY, Merril C. Enciclopédia da Bíblia Vol 5. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 458.

[2] BARCLAY, William. The Letters to the Corinthians. Philadelphia: The Westminster Press, 1954, pp. 11-12.

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