sábado, 9 de outubro de 2010

O PROBLEMA DO MAL NO MUNDO

Por Pr. Paulo Henrique P. Cunha

     Nenhum outro assunto tem gerado mais controvérsias ao longo dos séculos do que o problema do mal no mundo. Este é um dos mais antigos, controversos e profundos problemas tanto da teologia como da filosofia.
      Existem pelo menos três perspectivas básicas sobre Deus e o mal no mundo: o Ateísmo que afirma a realidade do mal, mas nega a existência de Deus; o Panteísmo que afirma a existência de Deus, mas nega a realidade o mal; e o Teísmo que afirma tanto a existência de Deus como a realidade do mal, o que parece discordante.
      Os ateístas questionam: “Se Deus existe, por que Ele permite o mal?”. A existência do mal parece contradizer muitos dos atributos de Deus como sua bondade, justiça e seu amor. Existem muitas tentativas de mostrar que Deus não é responsável pelo mal no mundo. Algumas bem sucedidas outras não. Alguns tentam defender a existência de Deus abandonando a ideia da sua onipotência. Para estes, Deus está tentando vencer o mal, e o venceria se pudesse, mas infelizmente Ele não é capaz de fazê-lo. Outros procuram modificar (diminuir) a ideia da bondade de Deus, no caso de alguns calvinistas mais radicais (extremados), que não hesitam em usar o termo determinismo para descrever Deus como o causador de todas as coisas, inclusive dos atos humanos.
      Os panteístas preferem ignorar o problema do mal no mundo chamando-o de ilusão. Mas se o mal é uma ilusão, por que parece tão real? Além disso, de onde teria vindo esta ilusão? A dor e o mal são aspectos da vida de todo ser humano, que as experimentam em determinado grau, uns mais outros menos, fazendo com que a ideia panteísta se torne algo absolutamente sem sentido, longe da realidade presente de cada dia.
     Uma solução completa a respeito do mal no mundo está além da nossa capacidade humana (finita) de compreensão, mas a Bíblia nos fornece muitas respostas a estas questões essenciais. “A resposta do Teísmo consiste em indicar vários fatos básicos. Deus não pode produzir, nem promover o mal; Ele pode, no máximo, permiti-lo. Todavia, por ser onipotente, Ele pode tanto vencer o mal, quanto fazer surgir um bem ainda maior, quando Ele o permitir.”[1]
     Quando a Bíblia afirma que Deus é o autor de tudo quanto existe, isto não se aplica ao mal. Geisler faz importantes observações a este respeito:

     “Deus é autor dalgumas coisas apenas indiretamente. Por exemplo, Deus criou a liberdade, mas Ele mesmo não cumpre atos de maldade, nem através do livre arbítrio do homem. Usando outro modo de falar: Deus não cria o mal de modo direto ou essencial mas, sim, apenas incidentalmente. Deus é diretamente responsável somente pelo fato da liberdade, não por todos os atos da liberdade. É lógico, Deus criou a possibilidade do mal quando fez os homens livres. Mas são as criaturas livres que levam a efeito a realidade do mal. Deus é indiretamente pelo mal sendo que tornou possível o mal. Mas a possibilidade do mal é realmente um bem – é necessário para a liberdade humana. O poder do livre arbítrio é um bom poder; o fato de que os homens abusam da liberdade não torna má a liberdade. Os homens abusam de tudo, inclusive da água e do ar no seu meio-ambiente. Mas isto não significa que a água e o ar são maus.
     [...] O mal não é uma “coisa” (ou substância). O mal é uma privação, ou ausência do bem. O mal existe noutra entidade (como a ferrugem existe num automóvel ou a podridão numa árvore), mas não existe por si mesmo. Nada pode ser totalmente mal (num sentido metafísico). Não se pode ter um carro totalmente enferrujado nem uma roupa totalmente comida pelas traças. Se, pois, fosse completamente destruído, logo, não existiria de modo algum. O cristão indica a Escritura que diz que tudo quanto Deus fizera era ‘bom’ (Gn 1.31); até hoje, ‘tudo que Deus criou é bom’ (1 Tm 4.4), ‘nenhuma coisa é de si mesmo impura’ (Rm 14.14).”[2]

     A Bíblia demonstra que Deus é absolutamente perfeito (cf. Dt 32.4; 2 Sm 22.31; Sl 18.30) e, portanto, Deus não peca nem tão pouco criou o pecado. Da mesma forma, as Escrituras afirmam que Deus é completamente santo e não pode aprovar o pecado de maneira alguma. Sendo assim, Deus não pode estimular nem tentar ninguém ao pecado: “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta” (Tg 1.13).
     Deus não criou mal e nem estimula alguém ao pecado, mas Deus pode permiti-lo, e isto o faz. Os homens não seriam humanos se não possuíssem o livre arbítrio. Mas ao criar o homem com livre arbítrio, Deus criou a possibilidade do pecado. Deus não precisava criar o mundo, mas Ele o fez por sua própria vontade (Ef 1.11). Deus criou o homem semelhante a Ele mesmo, com a capacidade de amá-lo livremente, mas também poderiam odiá-lo. Deus deseja que todos os homens o amem, mas não forçará nenhum deles a amá-lo contra sua vontade. O amor forçado nunca foi e nunca será verdadeiro amor. Deus permite o mal a fim de produzir um bem maior. Se Deus tivesse evitado o mal, Ele teria de nos fazer diferentes do que somos. Deus decidiu criar seres que teriam comunhão com Ele e lhe obedeceriam, por livre escolha, mesmo sob a tentação de agir de maneira diferente.
     No fim, o máximo bem será atingido de várias maneiras:
     1) Deus terá compartilhado o Seu amor com todos os homens (Jo 3.16);
     2) Deus persuadirá com amor a tantos quanto for possível (2 Pe 3.9), mas respeita a decisão de cada um, seja qual for;
     3) Deus salvará tantos quanto possível sem violar o livre arbítrio deles (1 Tm 2.1);
     4) Os que não forem salvos receberão o destino que eles mesmos escolheram (Jo 3.19), de maneira que, o “bem” da sua liberdade será respeitada.

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[1] GEISLER, Norman L.; Teologia Sistemática. Vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 65.
[2] GEISLER, Norman L.; FEINBERG, Paul D. Introdução à filosofia: Uma perspectiva cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983, p. 262.

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