quinta-feira, 18 de março de 2010

Idolatria dos Sermões

Por Pr. Emílio Conde

Não alimentamos qualquer ilusão quanto à reação que alguns esboçarão contra o assunto de que trata este capítulo; sabemos convictamente que nem todos aplaudirão as verdades aqui enunciadas. Ninguém deseja ser considerado idolatra, principalmente tratando-se de pregadores, porém os fatos pesam mais que o desejo e os fatos aí estão a testificar que há muitos pregadores que, sem se aperceberem, tornaram-se idolatras de sermões.
Desejamos fique bem claro que o sermão ou pregação pode ser uma fonte de bênçãos para o pregador, para os ouvintes não-salvos e para os remidos que já pertencem à igreja. Ao mesmo tempo, frisamos, pode transformar-se numa forma de idolatria. Tudo depende da atitude que o pregador tomar ao entregar a mensagem ao povo.
A pregação pode ser uma luz a iluminar o caminho para o Calvário, como pode ser uma nuvem de obscuridade a evitar que as almas vejam Cristo e o sigam. Se o pregador estimar mais a mensagem que prega do que a Pessoa de Cristo, tal pregador é idolatra. Se a pregação for feita com o propósito de mostrar a capacidade do orador, ninguém negará que no coração há idolatria ligada ao sermão.
Inegavelmente, o que há em abundância na igreja dos nossos dias são pregadores idolatras de seu próprio trabalho, que é feito sem a preocupação de elevar Cristo, mas com o cuidado preconcebido de mostrar sapiência humana.
O sermão será um ornamento a fazer brilhar a luz do Evangelho, se anunciado no propósito que tornou grande a missão de João Batista, ao declarar que convinha que Cristo crescesse, e que ele, João, diminuísse. O sermão concorrerá para o brilho da igreja, se Cristo for o centro e a periferia do assunto que se anuncia. De outra forma, se a pregação for vazia de sentido e da unção do Espírito, será um ídolo para o pregador, com o evidente perigo de o ser também para os seus ouvintes.
Se alguém deseja conhecer o caráter dos sermões ou pregações dos apóstolos e dos homens de seu tempo, é só recorrer aos livros do Novo Testamento, pois ali está o espelho, o modelo e o característico da mensagem que não transforma corações livres em idolatras de sermões. A primeira verdade revelada na pregação apostólica é que a mensagem era feita para ganhar almas. O único tema que os inspirava e lhes dava fulgor era unicamente Jesus Cristo, o Filho de Deus.
O contraste entre os pregadores dos tempos apostólicos e muitos pregadores de nossos dias é flagrante. O que há em abundância nos dias presentes são ganhadores de elogios, em virtude de carregarem seus sermões de sabedoria, deixando-os vazios de Cristo.
Há pregadores que seriam bons novelistas, se abraçassem a profissão de escritor, que, porém, nada tem que ver com a pregação do Evangelho. Não se pense que essa classe de pregadores é diminuta. Ao contrário, é bem numerosa. Aqueles que falam para impressionar o auditório, afastaram-se demasiado da estrada da vida. O que Cristo pede e deseja do pregador é que fale do que recebeu do Pai; que exprima sua gratidão, alegria e o poder da salvação. Se o pregador não possuir essas verdades arraigadas no coração, terá de substituí-las por frases muito sugestivas, artificiosas e eloquentes, que rescendam a cultura. Mas é aí que está o perigo da idolatria dos sermões.
Os homens de responsabilidade integrados na vida da igreja devem saber que religião e salvação não são assuntos sujeitos às exigências da arte de falar, nem melhoram com os retoques estéticos do buril linguístico. Se tal sucedesse, isso seria subordinar um tema divino e espiritual ao capricho da retórica. A obra de levar almas a Cristo é mais simples, mas é mais elevada que o trabalho de colecionar termos para dar realce àquele que prega.
Pregar o Evangelho não é atrair o intelecto para o brilho da inteligência: é, antes de tudo, expor ao mundo atribulado o caminho da vida eterna e da paz.
Deus não chamou, nem chama, para pregarem nas igrejas ou nas praças, preletores de filosofia nem apologistas das várias ciências. O lugar de prelecionar retórica ou eloquência não é a igreja. Há as cátedras onde é mais próprio fazê-lo. Se o pregador introduzir elementos estranhos na pregação, prova que está inclinado para um lado perigoso, que pode transformar-se em idolatria dos sermões.
Envernizar o sermão com as tintas do saber terreno é ofuscar o brilho da espiritualidade que deve fulgurar na mensagem do evangelista que fala às almas sem Cristo.
Fazer um sermão saturado de frases e expressões engenhosamente dispostas para impressionar o auditório, pode ser mais fácil que pregar dentro das linhas bíblicas em que só a graça ressalta e dá vibração, porém tal sermão pouco valor terá para converter almas a Cristo, porque é um sermão arquitetado e idolatrado por quem o fez.
Jamais ouvi um testemunho de alguém que declarasse haver sido salvo pela ciência, pela cultura, pela eloquência ou pelo pregador. Entretanto o que se ouve de todos quantos alcançaram ser iluminados pela graça de Deus, é que Cristo os salvou, que o poder do Evangelho os levantou, que a graça os redimiu.
O pregador que viver o Evangelho terá na sua mensagem a chama da unção a dar realce ao que fala, porque é uma força que sai do coração e vai direto ao objetivo. Foi assim na igreja primitiva, e será assim na igreja, em todos os tempos. Pregar o Evangelho é colocar os homens face a face com Cristo, é iluminá-los com a luz do próprio Céu. Pregar somente sabedoria intelectual é colocar os homens face a face com a cultura e erudição, é o caminho mais curto para o pregador alcançar o altar da idolatria dos seus sermões. Pregar para ser admirado é fundir bezerros de ouro que os ouvintes, mais cedo ou mais tarde, adorarão. Pregar a Palavra é sacrifício que leva até ao holocausto, mas que impede chegar-se à idolatria.
Ninguém se engane com as aparências! A letra não será o brilho da igreja cristã. A capacidade humana não é facho de luz capaz de atrair as almas para serem salvas. A habilidade dos homens não converterá um só coração. Na igreja somente uma luz deve aparecer - Cristo, que é a Luz do mundo. Se faltar essa luz, haverá certamente idolatria, pelo menos a idolatria de sermões.

Extraído do Livro "Igrejas sem Brilho", escrito pelo Pr. Emílio Conde (1918 - 1971) e publicado pela CPAD. Apesar de ter sido escrito há muitas décadas, sua mensagem é mais atual do que nunca.

Soli Deo Gloria!

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