sábado, 14 de março de 2009

Pastor precisa de pastor?

* Por José Cássio Martins

A pergunta parece absurda e fora de propósito. Afinal, pastor existe para pastorear. Jesus disse: “Tome conta das minhas ovelhas” (Jo 21.15-17, NTLH).
O próprio Pedro o repetiu depois: “Aconselho que cuidem bem do rebanho que Deus lhes deu” (1 Pe 5.2, NTLH). (Ver também Ezequiel 34.)
Cada dia se torna mais claro nas denominações em geral: sim, o pastor precisa de um pastor; ele precisa ser pastoreado.
Cresce dia a dia o número de pastores com problemas espirituais, emocionais e até mesmo físicos, problemas que não ficam somente com eles, mas terminam por atingir a família, a igreja local ou instituição em que trabalham, chegando ao âmbito da denominação.
O pastor é uma ovelha sem pastor! Algumas denominações já têm criado meios de contato e espaços para ajudar pastores. Psicólogos e psiquiatras têm colaborado. Há pastores, bispos e irmãos realizando esse trabalho sem nomeação alguma, só “por ordem do coração”. Ótimo.
Uns poucos pastores procuram ajuda. Menos mal, pois ajuda é coisa de Deus. Porém, a grande maioria segue em frente com os problemas, forçando o organismo e a capacidade pessoal, na base da “força de vontade” e da conhecida “consagração ao ministério”. Esta pode chegar a ponto de fazer a saúde pessoal, a família e o lazer, bem como a própria vida devocional, serem esquecidos. Os resultados são trágicos. É a realidade da tensão, do cansaço, do desgaste humano, emocional e espiritual, como Ricardo Gondim apontou recentemente. Sim, o pastor precisa de um pastor. Urgente, pois tem necessidades pessoais como todo ser humano.
Colegas, o quarto mandamento (shabat) precisa ser relembrado.
O pastor é um ser apenas humano, e não sobre-humano. Assim, ele tem fraquezas e limites. Comete erros, equívocos e confusões. Há falhas e imperfeições, assim como neste breve artigo, inclusive.
Há também a idealização do pastor e do pastorado, ou seja, a noção de que o pastor “está perto de Deus e assim não precisa de nada”. Por vezes o pastorado é visto como sublime, muito elevado, imune às vicissitudes humanas. Isso já se tornou cultura entre nós e acaba se chocando com a realidade no cotidiano, deixando um rastro de frustração, quando não de revolta, pessimismo e desânimo. Falta uma visão teológica articulada do que é, de fato, o pastorado.
Ser pastor é cuidar da pessoa como um todo, de seu consciente e inconsciente, corpo, alma, espírito, o eu interior e exterior, ou como queiram expressar. Isso tem um custo humano, pois o pastor tem de jogar toda a personalidade, todo o potencial no desempenho das suas funções.
Todas as profissões envolvem o estresse, esse novo “mal do século”. E o pastor não é exceção. O estresse tem a idade do homem. O primeiro estressado da história foi Adão... Seguem-se Moisés e os profetas, Jesus, Paulo, para citar apenas alguns. Nenhum servo de Deus jamais teve vida mansa.
Há ainda o ativismo. O pastor sente que tem de estar ocupado o tempo todo, sendo afastado de uma vida saudável, normal, espiritual.
Lembramo-nos também da competição por parte de alguns, o que gera grande peso. Jesus censurou os filhos de Zebedeu por essa razão e ensinou que devemos orar para não cairmos em tentação. Nós não oramos e entramos em competição. Era disso que Paulo se queixava.
O pastor tem medos, tristezas, angústias, desconfianças e temores. Certos “jeitos de ser” da igreja fazem dela, às vezes, um fator de medo, de angústia e insegurança, sempre que se prioriza seu aspecto institucional e formal, em detrimento da espiritualidade e da graça divina, levando-a a ser até mesmo impiedosa. A fala de Jesus no Getsêmani revela isso: “A tristeza que estou sentindo é tão grande que pode me matar” (Mt 26.38; Mc 14.34, NTLH).
Mais sério que tudo é que pode estar havendo entre alguns pastores um empobrecimento da espiritualidade. Para estes Deus e a vivência com as Escrituras parecem algo distante. A obrigação de preparar sermões e estudos pode estar ocultando o lado devocional. Assim, os problemas se avolumam.
Alegra-nos saber de vários esforços sadios, movimentos que estão surgindo para sanar esse grave mal em nosso meio. A busca a Deus está voltando! Amém.
Sim, o pastor precisa de pelo menos um pastor, alguém que lhe fale como Jesus falou. Ele precisa de oração, de visão, de perdão e autoridade espiritual e teológica. Precisa de quem o reconduza pelos umbrais de Deus!
Quem for chamado para essa tarefa deve fazê-la com ética, responsabilidade e caráter. Que ninguém fique de fora, parodiando Caim: “Por acaso eu sou o pastor do meu pastor?”
A resposta é clara.

Extraído da Revista Ultimato
* José Cássio Martins, 68 anos, pastor e psicólogo, é membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC). É professor de psicologia pastoral no Centro Evangélico de Missões, em Viçosa, MG, do Curso Logos, em São Paulo, e do Instituto de Formação Cristã, em Vinhedo, SP. Foi o primeiro secretário-geral de apoio pastoral da Igreja Presbiteriana do Brasil.

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