segunda-feira, 30 de março de 2009

Razões suficientes para não se fazer missões

Por Luiz Fernando Rezende Coutinho

Já ouvimos falar de intermináveis motivos para se fazer missões. Agora, veremos exatamente o contrário: razões para não se fazer missões de forma alguma. Aqui fizemos um apanhado suficiente e completo, dedicado à causa daqueles ‘cristãos’ que nunca quiseram pensar e muito menos fazer missões.
O primeiro motivo para não se fazer missões é simples, só é um pouquinho difícil de acreditar, mas mesmo assim, pode acontecer. É o seguinte: você nunca leu na Bíblia o capítulo 15 e o versículo 16 do Evangelho segundo Marcos (a propósito fica no Novo Testamento) que diz: "Ide por todo mundo, e pregai o evangelho a toda criatura". Nunca ter lido este texto bem que poderia ser uma razão para não se fazer missões. Caso você nunca tenha lido este versículo, bem, agora você acabou de ler! Se este era o motivo, já não o é mais.
Esta é mais outra razão: Deus ainda não me orientou neste sentido. A falta de orientação se deve de igual maneira pela provável falta de conhecimento de um outro versículo, em Mateus 28.19,20a, que diz assim: "Portanto, ide e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado..." Você tem certeza que Deus nunca o orientou? Será que nunca leu isso mesmo? É tão comum nas igrejas ouvir a segunda parte do versículo 20, que diz: "E certamente estou convosco todos os dias até a consumação do século". Não é linda essa palavra? Até parece dizeres de caixinha de promessa. Agora, se você quiser ignorar os versículos anteriores, não podemos fazer nada. Só que ignorando-os, logicamente que esta última promessa de Cristo na sua vida também deverá estar de igual modo ignorada, pois esta incluído no mesmo versículo. Você concorda?
Outro motivo: você é um daqueles que diz assim referindo-se a missões: "Primeiro Jerusalém (ou seja, a cidade onde moro), depois em Judéia (nosso Estado) e mais depois ainda em Samaria (nosso País) e por último de tudo... os confins da terra". Pior de tudo é que sai falando que isto está na Bíblia (só não se lembra em que lugar). E ainda: "Não é justo mandar missionários para longe, quando na minha cidade há muitos para se converterem". O versículo bíblico mais parecido com a afirmação acima diz algo bem diferente, mas precisamente o contrário. Mas nós perdoamos; são coisas que acontecem... você também nunca deve ter lido o versículo de Atos 1.8, ou, se leu, não enxergou direito: "Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra". Isso indica claramente a simultaneidade. Não há nada que sugira primeiro num lugar e depois em outro e por último os confins da terra. O campo que Jesus explicava numa de suas parábolas, não é o meu bairro, nem minha cidade, nada disso. O Brasil também não é o campo. Jesus disse: "O campo é o mundo" (Mateus 13.38). A ordem é semear a palavra no mundo inteiro. Talvez você nunca tenha lido isso na Bíblia, mais precisamente no Novo Testamento! E quanto ao fato de não ser justo mandar missionários para longe, quanto em minha cidade há muitos para se converterem - então, obviamente, se você já é um salvo que crê em Jesus Cristo, então você não passa de um erro cometido no passado por um missionário, que saiu de sua terra para vir até o Brasil pregar o Evangelho antes que sua própria cidade fosse evangelizada. Seguindo esta mesma linha de raciocínio, o Espírito Santo também teria errado, mandando Paulo e Silas para a Macedônia, quando nem ainda a cidade deles estava evangelizada. E assim, o evangelho não deveria ter saído nem mesmo de Jerusalém. Que tragédia!!!
Não tem dinheiro! É o que logo falam! O bolso é a parte mais sensível. A falta de dinheiro para missões é justificável: ‘É necessário colocar um piso de mármore na igreja... é necessário ter um telefone celular dentro do templo... é preciso pagar vários cantores para o povo aplaudir nos cultos... as despesas com majestosas festas mensais são altas... as excursões turísticas custam caro...’ e assim, a lista de despesas segue-se parecendo mais é com a lista telefônica de São Paulo. Tem-se dinheiro para tudo, menos missões. Quando Jesus Cristo vier arrebatar a Igreja, os bens materiais vão ficar tudo por aí... e quem tiver com seu tesouro na terra, se não vigiar, vai ficar junto com ele: ‘pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração’ (Lc 12.34).
A situação de quem ignora a obra missionária é puramente de erro: ‘Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus’ (Mt 22.29). A rigor - o único motivo existente numa igreja local para não se fazer missões é este: seus líderes estão desviados da obra que está no coração de Deus, não tendo amor pela mesma. Não é por falta de dinheiro, não é por falta de nada. A única coisa que deve estar faltando é vergonha... e muita mesmo!
Se você é líder de alguma congregação cristã que se identifique com alguma característica que citamos, não é nossa intenção ofendê-lo. Concordamos que a casa de Deus deve ser bem zelada, transmitindo um aspecto agradável a todos na sociedade e suprida utilmente com o que houver de melhor. É uma dádiva que Deus nos dá, poder desfrutar de suas bênçãos. O texto é dirigido a todos os líderes de igrejas que arrecadam grandes valores em dinheiro, possuem um considerável patrimônio, gastam em empreendimentos faraônicos - mas não são capazes de destinar um único centavo para a causa maior: a obra missionária mundial - sob o pretexto de não possuírem condições financeiras para tal coisa....
Se a sua igreja é assim, então meu lamento. Qual tem sido o seu motivo para não fazer missões?"

sábado, 21 de março de 2009

Quais são as suas motivações?

Por Pr. Paulo Henrique

A vida cristã não é uma vida de acomodação, mas de trabalho. O cristão é chamado para o trabalho (1 Co 15:58), e através deste trabalho deve glorificar o seu Senhor. Muitos estão contentes por já serem salvos, mas acham que esta salvação é só para eles, e nada fazem para que outros também possam receber esta mesma salvação através de Jesus.
Ao passo que existem pessoas que nada fazem, existe também aqueles que estão trabalhando. E é para estes, que estão trabalhando na intenção de ajudá-los, que eu gostaria de fazer esta pergunta: "Quais são as suas motivações?".
No Reino de Deus o importante não é apenas o trabalho, mas as motivações que nos levam a realizar este trabalho. O apóstolo Paulo fala que se pode ter várias motivações até para se pregar o evangelho, mas é claro que nem todas são corretas: "Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade;" (Fp 1:15).
A Bíblia diz em 1 Co 3:13, que: "A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um."
No Tribunal de Cristo, a obra de cada salvo será provada, e lá se manifestará aquilo que muitos não viram, as intenções. Aquele "grande" pregador que pregou "grandes" sermões durante toda a sua vida, mas suas reais intenções não eram fazer Cristo conhecido, mas antes fazer o seu próprio nome conhecido, alcançar a fama e ser aplaudido pelas multidões. A obra deste será queimada pelo fogo, era apenas palha para Deus. E desde mesmo modo, existem muitos que têm realizado muitas obras, mas apenas para serem queimadas, pois são palhas.
Pregadores com os sermões idolatras, que em vez de engrandecer o nome de Cristo, exaltam é a oratória do pregador; são os cantores que em vez de louvarem o nome do Senhor fazem é o seu show particular nas igrejas; são os mestres que em vez de ensinarem o povo a seguir o exemplo de Cristo (Fp 2), querem é mostrar sua sabedoria humana e ostentar com orgulho os seus títulos alcançados. Estes tipos de pessoas querem é aparecer, querem ser vistos, reconhecidos e aplaudidos pelas multidões. Convide um destes pregadores, cantores ou mestres para ir a uma pequenina igreja do interior, e com certeza você vai ter um não como resposta, pois lá não vai dar para ele fazer aqueleeeeee.... show.
Será que estas pessoas estão tendo o mesmo sentimento de Jesus? E você? Leia Fp 2:5-8 e compare: "De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz." (FP 2:8)
Agora existe um outro sentimento que não deveria ser seguido por ninguém, mas será que não está sendo seguido? Leia Ezequiel 28:17 e compare: "Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor..."
Qual destes dois sentimentos você está seguindo? No primeiro instante é claro que você vai falar que é o de Jesus, mas examine o seu coração e peça a Deus para lhe mostrar se há algum outro sentimento. Diga para Deus como o salmista no Sl 26:2: "Examina-me, SENHOR, e prova-me; esquadrinha os meus rins e o meu coração."
A Bíblia fala em Pv 27:21 que o homem é provado pelo louvores que recebe. Como nos comportamos após um elogio público? Transferimos toda a glória para Deus, ou ficamos inchados até quase estourar de tanto orgulho? Seja sincero para você mesmo e responda a qual dos exemplos acima você poderia se comparar.
Conta-se que certa vez, John Bunyan (escritor do livro O Peregrino - um dos livros mais vendidos no mundo depois da Bíblia) depois de pregar seu sermão desceu do púlpito e logo foi parado por um irmão que disse: - "Pr. Bunyan, que bonita pregação!", ao passo que o Pr. Bunyan respondeu: "O diabo cochichou a mesma coisa em meu ouvido quando eu estava no púlpito". John Bunyan foi um homem que sempre seguiu o exemplo de humildade de Jesus, pois ele reconhecia que era apenas um pequeno servo, mas, nas mãos de um Grande Deus.
As obras que permanecerão são aquelas que são feitas com a intenção correta, ou seja glorificar a Deus e fazer Cristo conhecido. E nisto um grande exemplo foi João Batista, que disse: "É necessário que ele cresça e que eu diminua." (Jo 3:30).

terça-feira, 17 de março de 2009

Pegadas na areia

Por Margaret Fishback Powers ou Mary Stevenson

Uma noite eu tive um sonho...
Sonhei que estava andando na praia com o SENHOR, e através do céu, passavam cenas de minha vida.
Para cada cena que passava, percebi pegadas na areia; uma era minha e a outra, do SENHOR.
Quando a última cena de minha vida passou diante de nós, olhei para as pegadas na areia, notei que muitas vezes no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia.
Notei também que isso aconteceu nos momentos mais difíceis da minha vida.
Isso aborreceu-me deveras e perguntei então ao SENHOR:
SENHOR, Tu me disseste que, uma vez que eu resolvi Te seguir, Tu andarias sempre comigo, todo o caminho, Mas notei que nos momentos das maiores tribulações do meu viver, havia na areia dos caminhos da vida, apenas um par de pegadas.
Não compreendo...
Por que nas horas em que eu mais necessitava Tu me deixastes?
O SENHOR me respondeu:
Meu precioso filho, EU te amo e jamais te deixaria nas horas da tua prova e do teu sofrimento.
Quando vistes na areia apenas um par de pegadas, foi exatamente aí que EU TE CARREGUEI EM MEUS BRAÇOS!

sábado, 14 de março de 2009

Pastor precisa de pastor?

* Por José Cássio Martins

A pergunta parece absurda e fora de propósito. Afinal, pastor existe para pastorear. Jesus disse: “Tome conta das minhas ovelhas” (Jo 21.15-17, NTLH).
O próprio Pedro o repetiu depois: “Aconselho que cuidem bem do rebanho que Deus lhes deu” (1 Pe 5.2, NTLH). (Ver também Ezequiel 34.)
Cada dia se torna mais claro nas denominações em geral: sim, o pastor precisa de um pastor; ele precisa ser pastoreado.
Cresce dia a dia o número de pastores com problemas espirituais, emocionais e até mesmo físicos, problemas que não ficam somente com eles, mas terminam por atingir a família, a igreja local ou instituição em que trabalham, chegando ao âmbito da denominação.
O pastor é uma ovelha sem pastor! Algumas denominações já têm criado meios de contato e espaços para ajudar pastores. Psicólogos e psiquiatras têm colaborado. Há pastores, bispos e irmãos realizando esse trabalho sem nomeação alguma, só “por ordem do coração”. Ótimo.
Uns poucos pastores procuram ajuda. Menos mal, pois ajuda é coisa de Deus. Porém, a grande maioria segue em frente com os problemas, forçando o organismo e a capacidade pessoal, na base da “força de vontade” e da conhecida “consagração ao ministério”. Esta pode chegar a ponto de fazer a saúde pessoal, a família e o lazer, bem como a própria vida devocional, serem esquecidos. Os resultados são trágicos. É a realidade da tensão, do cansaço, do desgaste humano, emocional e espiritual, como Ricardo Gondim apontou recentemente. Sim, o pastor precisa de um pastor. Urgente, pois tem necessidades pessoais como todo ser humano.
Colegas, o quarto mandamento (shabat) precisa ser relembrado.
O pastor é um ser apenas humano, e não sobre-humano. Assim, ele tem fraquezas e limites. Comete erros, equívocos e confusões. Há falhas e imperfeições, assim como neste breve artigo, inclusive.
Há também a idealização do pastor e do pastorado, ou seja, a noção de que o pastor “está perto de Deus e assim não precisa de nada”. Por vezes o pastorado é visto como sublime, muito elevado, imune às vicissitudes humanas. Isso já se tornou cultura entre nós e acaba se chocando com a realidade no cotidiano, deixando um rastro de frustração, quando não de revolta, pessimismo e desânimo. Falta uma visão teológica articulada do que é, de fato, o pastorado.
Ser pastor é cuidar da pessoa como um todo, de seu consciente e inconsciente, corpo, alma, espírito, o eu interior e exterior, ou como queiram expressar. Isso tem um custo humano, pois o pastor tem de jogar toda a personalidade, todo o potencial no desempenho das suas funções.
Todas as profissões envolvem o estresse, esse novo “mal do século”. E o pastor não é exceção. O estresse tem a idade do homem. O primeiro estressado da história foi Adão... Seguem-se Moisés e os profetas, Jesus, Paulo, para citar apenas alguns. Nenhum servo de Deus jamais teve vida mansa.
Há ainda o ativismo. O pastor sente que tem de estar ocupado o tempo todo, sendo afastado de uma vida saudável, normal, espiritual.
Lembramo-nos também da competição por parte de alguns, o que gera grande peso. Jesus censurou os filhos de Zebedeu por essa razão e ensinou que devemos orar para não cairmos em tentação. Nós não oramos e entramos em competição. Era disso que Paulo se queixava.
O pastor tem medos, tristezas, angústias, desconfianças e temores. Certos “jeitos de ser” da igreja fazem dela, às vezes, um fator de medo, de angústia e insegurança, sempre que se prioriza seu aspecto institucional e formal, em detrimento da espiritualidade e da graça divina, levando-a a ser até mesmo impiedosa. A fala de Jesus no Getsêmani revela isso: “A tristeza que estou sentindo é tão grande que pode me matar” (Mt 26.38; Mc 14.34, NTLH).
Mais sério que tudo é que pode estar havendo entre alguns pastores um empobrecimento da espiritualidade. Para estes Deus e a vivência com as Escrituras parecem algo distante. A obrigação de preparar sermões e estudos pode estar ocultando o lado devocional. Assim, os problemas se avolumam.
Alegra-nos saber de vários esforços sadios, movimentos que estão surgindo para sanar esse grave mal em nosso meio. A busca a Deus está voltando! Amém.
Sim, o pastor precisa de pelo menos um pastor, alguém que lhe fale como Jesus falou. Ele precisa de oração, de visão, de perdão e autoridade espiritual e teológica. Precisa de quem o reconduza pelos umbrais de Deus!
Quem for chamado para essa tarefa deve fazê-la com ética, responsabilidade e caráter. Que ninguém fique de fora, parodiando Caim: “Por acaso eu sou o pastor do meu pastor?”
A resposta é clara.

Extraído da Revista Ultimato
* José Cássio Martins, 68 anos, pastor e psicólogo, é membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC). É professor de psicologia pastoral no Centro Evangélico de Missões, em Viçosa, MG, do Curso Logos, em São Paulo, e do Instituto de Formação Cristã, em Vinhedo, SP. Foi o primeiro secretário-geral de apoio pastoral da Igreja Presbiteriana do Brasil.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Missões. Agora é o tempo!

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Sem euforia

* Por Antonia Leonora van der Meer

Há uma tarefa enorme diante de nós, e somos chamados a assumi-la com humildade, compromisso, disposição ao sacrifício, visão e entusiasmo. Já não cabe a euforia brasileira de que nós somos “o grande celeiro de missões”. Há países como a Índia, com uma igreja bem menor, mais pobre e perseguida, que é muito mais ativa na obra missionária (possui 44 mil missionários, dos quais 60% trabalham de forma transcultural). A igreja evangélica cresceu muito mais em países africanos, em meio a guerras e grandes calamidades, do que no Brasil. A igreja em Angola, por exemplo, cresceu de 384 mil membros em 1975 para 2,1 milhões em 2000 — aumentou cinco vezes e meia. Na Nigéria, aumentou cinco vezes: de 5,2 milhões para 26,2 milhões em 2000. No Brasil, cresceu de 12.450.000 para 26.167.000, um pouco mais que o dobro.
Mas sim, temos nosso lugar, nosso papel, nossa responsabilidade. Infelizmente, na euforia reinante, temos nos sujeitado a todo tipo de vento de doutrinas e práticas estranhas que não honram ao nosso Senhor.
É necessário voltarmos à nossa base evangélica, às ênfases do Congresso de Lausanne e ao compromisso com a missão integral. Nessa área há um espaço-chave para a América Latina e para o Brasil, que foram os evangélicos pioneiros dessa visão: com compromisso, podemos nos tornar resposta de Deus para um mundo em crise.
Até que ponto estamos dispostos a nos tornar vasos de barro, não muito atraentes, nem muito importantes ou respeitáveis, mas muito úteis em levar a água da vida que transforma as pessoas e dessedenta um mundo que está ou morrendo de sede, ou se dessedentando com substâncias tóxicas?
Ser instrumento de bênção nas mãos de Jesus significa que nosso caminho será semelhante ao dele, não sempre de glória em glória, mas por meio da humilhação, do sofrimento paciente, da morte, à vitória verdadeira, a frutos abundantes: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto... Se alguém me serve, siga-me” (Jo 12.24, 26). Mas esse sacrifício não pode ser apenas daqueles que são enviados. Deve ser uma atitude e um compromisso da igreja evangélica brasileira, totalmente presente e comprometida, seguindo o modelo de Jesus, que disse: “E eis que estou convosco todos os dias”... em todos os lugares (Mt 28.20). Estamos prontos?

Extraído da Revista ULTIMATO
* O presente artigo foi escrito por Antonia Leonora van der Meer, mais conhecida por Tonica, foi missionária em Angola por dez anos e, agora, é deã do Centro Evangélico de Missões, em Viçosa, Minas Gerais.

O preparo é necessário, mas o chamado é indispensável!

Por Pr. Paulo Henrique

Há o chamado geral, para todos cristãos de todas épocas, para serem testemunhas de Cristo na sua geração (At 1.8), mas no decorrer da história cristã, principalmente no N.T. nós vemos Deus chamando alguns, de maneira especifica, para alcançar: um povo (Paulo e os gentios), um local (Áquila e Priscila em Coríntios) ou mesmo uma pessoa (Felipe e o Eunuco – Atos 8).
O apóstolo Paulo foi um exemplo disto. Ele foi chamado (At 13.1-3). Embora seu chamado não fosse especifico para uma área geográfica, ele o era para uma classe ou povo específico: os gentios (Atos 9.15). E, mesmo assim, algumas vezes Deus o impediu de ir para algum lugar, pois desejava que ele estivesse indo para outro (Atos 16.9).
O chamado (específico) não tem necessariamente de ser para toda vida, mas até que os propósitos de Deus para a vida do chamado sejam concluídos num local ou entre um povo. No A.T. nós vemos que muitos foram chamados para realizarem atividades específicas, algumas dessas atividades foram para a vida toda daquele que foi chamado, enquanto outros foram por um período de tempo apenas, até que fosse concluído o propósito de Deus para aquela pessoa ou situação. Quando entendemos isto, são dissipadas várias críticas quanto aos que se opõem ao chamado específico.
Para mim este assunto é extremamente importante, quando muito se tem discutido a respeito do retorno pré-maturo de muitos missionários. Muitas têm sido as causas deste retorno pré-maturo de missionários. São questões sérias que precisam ser tratadas e discutidas para a busca de soluções. Mas não é minha intenção aqui discutir estes muitos aspectos visto ser algo muito extenso, mas apenas trazer uma luz sobre o assunto em questão. Minha intenção aqui não é desmerecer nenhum estudo missiológico, mas dentre os muitos estudos da supostas causas deste retorno pré-maturo, em pouquíssimos, eu vi ser tratado a questão da convicção do chamado. Infelizmente a convicção do chamado (específico) tem sido deixada de lado, negligenciada e até combatida por alguns como algo errado.
Algo extremamente interessante é que a geração que tem os missionários mais bem preparados, também tem a mais alta taxa de retorno pré-maturo se comparado a gerações anteriores, onde muitos missionários não tinham um bom preparo, como é oferecido hoje aos candidatos ao campo, e muitos não tinham nem mesmo o seu sustento financeiro. Mas foram estes pioneiros que desbravaram muitos campos missionários, alguns dando as suas próprias vidas, e, de certa forma, prepararam muitos campos para que hoje outros missionários possam trabalhar neles. Estes pioneiros iam para o campo sem saber se voltariam vivos, muitos deles sem nem mesmo a promessa de sustento. E minha pergunta é: O que os fazia tão firmes em seu propósito? Por que eram tão perseverantes mesmo estando em piores condições que os atuais missionários? Por que permaneciam, alguns até a morte, ao invés de mudar para outro lugar mais conveniente toda vez que surgia algum problema ou perseguição? Me perdoem, se é muita pretensão minha responder a estas perguntas, mas gostaria de arriscar, tendo como base muitos exemplos bíblicos, também a biografia de muitos destes bravos pioneiros e um pouco da minha própria experiência vivida num campo missionário como a Índia. Eu diria que foi: o chamado de Deus!!!
Não pretendo de maneira nenhuma menosprezar o preparo missiológico, teológico, lingüístico e ou outros. Eu aconselho e recomendo a cada candidato ao campo missionário a investir o máximo possível em seu preparo para o campo. E neste ponto gostaria de deixar uma palavra para o candidato ao campo missionário: Se prepare da melhor maneira, mas antes de ir para o campo missionário busque a direção de Deus e parta com a convicção que Deus o chamou para aquele lugar. Pois do contrário, por melhor que seja seu preparo, quando estiver no campo, quando vierem os problemas, dificuldades e desafios, somados a pressão espiritual, você carregará com muita certeza um outro fardo: o da dúvida. Um das perguntas que o perseguirá será: "Será que é aqui, neste lugar, que Deus quer que eu esteja?" Mas se você tem a convicção que foi Deus que lhe chamou e lhe está enviando para este lugar, ainda que o inimigo tente o inquietar e por dúvida com relação ao seu chamado, ele não terá sucesso!
Muitas coisas são importantes antes do missionário ser enviado ao campo, como o preparo teólogico, psicológico, missiológico, mas uma coisa é por demais importante - é a convicção de seu chamado. O preparo é necessário, mas o chamado é indispensável! Por melhor que seja o preparo, a realidade do campo missionário é bem diferente. Mas quando você tem a convicção de seu chamado, não importa onde, este lugar será o melhor lugar do mundo para você estar, pois é ali que Deus quer que você esteja. O que traz consolo, conforto, e renovo espiritual todos os dias é você saber que está no centro da vontade de Deus. Isto traz uma paz profunda!
Quando falo isso lembro-me do que Moisés disse para Deus em Ex 33.15: "Se tu mesmo não fores conosco, não nos faças subir daqui." Da mesma forma que Moisés, eu não teria coragem de ir trabalhar num campo missionário como a Índia e agora como a Itália se Deus não nos tivesse chamado. Mas quando Deus chama, Ele envia, mas Ele não nos envia sozinhos, Ele mesmo vai conosco, e jamais nos desampara. “...Porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei” (Hb 13.5)

O lugar do sofrimento na vida do missionário

* Por Antonia Leonora van der Meer

Ser missionário é um privilégio, não um fardo intolerável carregado por uns “grandes servos de Deus”. Deus escolhe os pequenos, os fracos, as coisas loucas deste mundo para que a glória seja só dele (1 Co 1.26-29). Mas esse privilégio está ligado ao caminho da renúncia e de levar cada dia a sua cruz, seguindo a Jesus. O sofrimento já faz parte da vida de muitos missionários e, quanto mais penetrarmos nas regiões ainda não alcançadas, mais teremos contato com realidades de grande carência social e espiritual, de conflito com poderes das trevas, de violência, guerra e perseguição. Isso leva ao sofrimento do missionário e de sua família. Porém, muito mais do que isso, o confronto com o sofrimento do povo certamente vai perturbar profundamente o coração do missionário.
Como podemos enviar pessoas para lugares onde o sofrimento é uma realidade diária e muito forte? Alguns acham que isso não pode ser a vontade de Deus. Mas como foi que Deus enviou seu Filho? Com que garantia e segurança? Lembremo-nos de que Jesus disse: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21; 15.20). Isso significa correr os mesmos riscos, vencer a mesma resistência, viver com a mesma expectativa de vitória, por meio do caminho da cruz.
Como podemos descrever o sofrimento na vida do missionário? Nas horas de guerra violenta que presenciei, o que me chocou mais profundamente foi ver pessoas feridas, caídas nas ruas sem ninguém poder socorrer, e ouvir as histórias das vítimas da guerra nos hospitais. Uma mulher sem braços que perdeu a única irmã, barbaramente violentada. Crianças atingidas por balas enquanto dormiam em sua própria cama. Ver a falta de recursos e a angústia dessas pessoas era profundamente perturbador. Mas Deus precisa de um instrumento para levar sua graça, amor e esperança a essas pessoas. É o sofrimento de saber da angústia de nossa família e não poder fazer nada para tranqüilizá-la. E as coisas sempre parecem piores do que são para quem as acompanha de longe. É o sofrimento de acompanhar o despertamento espiritual, a descoberta da graça de Deus por uma pessoa, que depois aparece mutilada, morta pela própria família.
Outro motivo de sofrimento é que as pessoas põem em nós uma carga de esperança de solução para seus problemas muito além das nossas possibilidades. Às vezes nos perguntamos: “O que estou fazendo aqui? Fará alguma diferença esse pouco que posso fazer?” É claro que fará diferença! Cada vida transformada, que recupera a esperança, a alegria e a razão de viver, a consciência de sua dignidade é uma grande vitória. Mas às vezes ficamos angustiados pelo muito que não podemos fazer e que de nós é esperado.
Há também os sofrimentos relacionados com a família que deixamos para trás. Muitos lutam e têm a obrigação de deixar pessoas e ministérios que amam para dar apoio aos pais idosos que precisam de sua presença. Outros sentem-se forçados a voltar prematuramente (o coração ainda quer ficar) para não comprometer a educação e o futuro dos filhos.
Além disso, há sofrimentos evitáveis, causados pela irresponsabilidade dos que enviam sem apoio verdadeiro, sem orientação e sem fidelidade no sustento financeiro. Isso gera profundas angústias e as igrejas terão de prestar contas a Deus da maneira como tratam os seus obreiros.
Qual é a nossa responsabilidade? Não podemos enviar missionários apenas invocando a bênção de Deus e depois lavar as mãos. A obra é nossa, como igreja brasileira. Precisamos estar bem perto de nossos missionários, acompanhando-os diariamente em oração, mantendo contato por e-mail, carta, telefone, de modo responsável (há lugares onde uma carta mal orientada pode causar muitos problemas). Podemos enviar uma pessoa para visitá-los, orar com eles e ouvi-los. Devemos recebê-los com muito carinho, cuidado e atenção quando vêm de férias, para que tenham um bom descanso e renovação física, emocional e espiritual, provendo suas necessidades. (Infelizmente, ainda há igrejas que cortam o sustento durante os meses em que o missionário está no Brasil, pois entendem erroneamente que ele “já não está fazendo o trabalho missionário”.)
Assim, há sofrimentos inerentes ao modelo de encarnação deixado por Cristo, para os quais o missionário deve estar preparado. Outros tipos de sofrimento podem ser minorados e é nossa responsabilidade fazê-lo, com carinho e amor pelos que estão na linha de frente.

Extraído da Revista ULTIMATO
* O presente artigo foi escrito por Antonia Leonora van der Meer, mais conhecida por Tonica, foi missionária em Angola por dez anos e, agora, é deã do Centro Evangélico de Missões, em Viçosa, Minas Gerais.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Missionário: um maluco, mártir, mendigo ou o quê?

Por Antonia Leonora van der Meer (Tonica)*

A igreja evangélica brasileira em poucas décadas transformou-se de campo missionário em "celeiro de missões". Como a igreja está assumindo e tratando seus missionários?

MALUCO?
Fui convidada para falar sobre missões numa igreja bem viva e dinâmica. A família que me hospedou não se cansava de ouvir minhas experiências missionárias. Até que, de repente, a filha que estava para terminar o curso de medicina começou a mostrar que estava seriamente considerando a possibilidade de servir na obra missionária.
O ambiente mudou totalmente; Isso seria uma loucura! Muitos cristãos ainda consideram o missionário basicamente um maluco. Como é que uma pessoa de boa formação ou com responsabilidades dentro da família abandona tudo e todos para embrenhar-se em alguma selva entre povos tribais ou para confrontar situações de alto risco em países resistentes, onde há falta de segurança e de confortos básicos? - Missionários solteiros, tudo bem (desde que não seja meu irmão ou minha filha), mas um casal com filhos é o cúmulo do absurdo! É claro que Deus não pediria uma coisa dessas para seus filhos!, é o pensamento de muitos.
Será que Deus não pediria? O que lhe custou o seu projeto missionário? A Bíblia afirma que se trata de uma loucura de Deus: uma loucura poderosa para salvar e transformar vidas humanas. Graças a Deus pelos que aceitam ser ´os malucos de Deus´ (1Co 1: 21-29) Mas isso significa uma atitude irresponsável da parte do missionário? Ou da Igreja? Infelizmente, muitas vezes tem sido! E aí já abandonamos a categoria da loucura segundo Deus para uma loucura humana, irresponsável. Isso acontece quando o missionário é enviado com um espírito ufanista, sem o preparo espiritual, bíblico, missiológico e pastoral adequado.
Quando ele ou sua igreja se sentem auto-suficientes, não precisam de ajuda ou orientação, nem de missionários mais experientes, nem de líderes cristãos nacionais. Assim, o missionário é enviado para ser benção, mas nem sempre será. Mas existe outra irresponsabilidade ou loucura injustificável e pecaminosa que nossas igrejas têm praticado. Enviam o missionário com a benção da igreja, que se orgulha em divulgar que sustenta ´X´ missionários.
Mas, de repente, surge um projeto de construção ou outra necessidade urgente que demanda toda a atenção. Ora, o missionário é pessoa de fé, Deus cuida dele e a igreja abandona seus missionários no campo. Será que o pastor também não é homem de fé? Por que, então, tal atitude inconseqüente? O missionário enfrenta dificuldades, às vezes problemas de saúde, falta de recursos básicos, falta de explicações e comunicação, dívidas. Como resultado, surge uma profunda crise.
Às vezes trata-se de uma pessoa que se adaptou bem ao campo, progrediu no estudo da língua nacional, relacionou-se bem com os nacionais e acaba sendo derrotada por esse abandono! Gostamos de falar em guerra espiritual, mas abandonamos nossa tropa de elite, nossos comandos no campo de batalha, sem orientação, sem recursos, às vezes feridos, sem qualquer cuidado! Nenhum exército humano faria isso. Outra manifestação dessa inconsistência acontece no momento em que o missionário põe os pés de volta no Brasil: Voltou do campo? Deixou de ser missionário. Acabou o sustento!
Um tremendo contraste com empresas e governos, que enviam funcionários para servir em outras culturas ou situações de risco, e sempre oferecem uma série de compensações. Mas, no caso dos nossos missionários, se o sustento não acaba por completo, geralmente diminui consideravelmente, afinal ´o missionário é uma pessoa simples, chamada para sofrer´... Não nego que muitos sejam chamados para sofrer. Mas esse sofrimento não deveria ser causado pela igreja que o envia e sustenta, mas pelas condições do contexto de vida do local onde trabalha.
É triste saber que missionários brasileiros voltam prematuramente do campo muito mais por causa da falta de preparo, de sustento e de apoio pastoral adequados, e por problemas de relacionamento com os que os enviam, do que por problemas de ministérios ou de relacionamento com as pessoas a quem servem, mesmo em países considerados de alto risco.

MÁRTIR?
Missionário?! Para mim é um ser muito mais santo, uma pessoa chamada para sofrer. É alguém que não se preocupa com as coisas do mundo, despojado. Um verdadeiro mártir! É assim que muitos vêem o missionário. Um ideal que pode ser admirado e colocado num pedestal, não um modelo para ser seguido. E é claro que uma pessoa que está no pedestal não precisa de minha ajuda e compreensão. Está ali para ser admirada (ou apedrejada).
Muitos missionários voltam dos campos emocionalmente exaustos, confusos, quebrantados, precisando muito de um tempo de renovação, cuidado e repouso. Mas são recebidos ou como heróis, como um programa lotado de compromissos, ou sem nenhuma atenção.
A igreja deveria ser a família onde fossem recebidos com amor, carinho, cuidado, interesse neles como pessoas e não só no trabalho que realizam. Há cristãos que, quando ouvem relatos de crises tremendas ou encontram o missionário doente, magro e exausto, aplaudem: Esse é um verdadeiro missionário! Mas, quando o mesmo missionário passa por uma fase mais tranqüila, facilmente surgem críticas e desconfianças: Ele fica viajando por aí com nosso dinheiro... Que trabalho realmente está fazendo? Parece até que está passando muito bem! O que significa mártir? Vem da palavra `ser testemunha´, `dar testemunho´. Mas aí o martírio não é privilégio só de missionários, e sim de todo cristão verdadeiro... O que vemos na igreja primitiva? Certamente houve alguns mártires que morreram pelo seu testemunho. Mas a maioria deles recebia vários tipos de apoio de igrejas e irmãos, e não buscava o sofrimento.
Este vinha sem ser convidado, muitas vezes inspirado, e era enfrentado com fé e coragem pelos discípulos de Jesus, que até se sentiam honrados por sofrerem pelo seu nome. Será que estou defendendo a volta de uma busca do martírio? Não! Mas se não estamos dispostos a encarar seriamente essa possibilidade como conseqüência de nosso ministério em situações de crise, teremos de abandonar muitos dos campos missionários mais carentes. No século 19, muitos missionários iam ao continente africano sabendo que havia um alto risco para suas vidas.
Oitenta por cento morriam de malária, doença que ainda tem matado alguns jovens missionários brasileiros na África. Isso é doloroso, mas não significa o fim de nossa responsabilidade. Mais difícil é a situação em muitos países, onde o fundamentalismo religioso vê o cristão como ameaça à sua cultura, família ou nação. Tem havido muitos martírios, a maioria de simples cristãos nacionais, dispostos a arriscar suas vidas no seu testemunho (martírio), muitas vezes sobrevivendo com salários ínfimos.

MENDIGO?
Ainda outros vêem o missionário como mendigo: Na minha igreja, missionário não prega! Um visitante estrangeiro, a quem um pastor foi constrangido a ceder o púlpito, transmitiu a mensagem de Deus e, para surpresa do pastor preconceituoso, não pediu nada. Não estava ali para pedir. Podemos perguntar mais uma vez: por que o pastor é digno de salário decente, plano de saúde, auxílio para transporte, etc., e o missionário é obrigado a `pedir esmolas´ para o seus sustento? Pessoalmente, dou graças a Deus porque nunca precisei pedir pelo meu sustento.
Os próprios líderes da Missão escreveram algumas cartas e igrejas e irmãos se manifestaram com boa disposição para ajudar no meu sustento, muitas vezes fontes inesperadas e fiéis. Nunca faltou nada. Mas o missionário que é convidado para se apresentar com carta de sua agência missionária com vistas a levantar sustento para o seu ministério não deveria se sentir e muito menos ser tratado como mendigo. Ele não é um peregrino solitário, mas um enviado, um embaixador, em primeiro lugar de Jesus Cristo, mas também da igreja.
Missões é sempre um ministério participativo, nunca uma tarefa isolada de um excêntrico. Conheci uma missionária que, depois de vários anos de ministério frutífero no exterior, passou um tempo no Brasil para mais treinamento. Ela sofria com dor de dente, mas não tinha coragem de compartilhar essa necessidade com sua igreja, com medo de ouvir: “Lá vem nossa missionária pedir de novo!” A igreja deveria providenciar este e outros cuidados naturalmente, livrando seus missionários de tal constrangimento.
Por outro lado, a igreja não deve ser ingênua, como muitas vezes tem se mostrado. Há missionários com boa lábia, que despertam as emoções e levam as pessoas a contribuir. Estes, nem sempre têm um bom testemunho no campo. Há outros que são fiéis e respeitados no seu ministério: são mais humildes na apresentação e, por isso, são esquecidos. De qualquer forma, parece ser algo extraordinário, não normal, contribuir com o sustento missionário. A igreja deve saber também que é muito melhor sustentar alguns, com um compromisso integral de intercessão e cuidado pastoral, que dar esmolas a muitos. Uma igreja com coração missionário recebe bem seu missionário que vem de férias e o ajuda a conseguir moradia, cuidados de saúde, apoio pastoral, um lugar para descansar. Muitas igrejas ainda não têm essa visão. Assim, muitos missionários voltam ainda mais arrebentados para o campo.
Uma vez fui convidada insistentemente (quase forçada) para ir numa grande reunião de senhoras de muitas congregações diferentes. Estava com pouco tempo, mas cedi ao convite. Quando chegou o momento para o testemunho missionário, a dirigente falou: Tem uma pessoa aqui que veio nos pedir uma coisa. Vamos lhe dar dois minutos? Sentindo-me humilhada, consertei: Não vim pedir nada. Fui convidada para dar um testemunho. Se me ouvirem pelo menos cinco minutos, disponho-me a falar.
Soube que, numa grande conferência cristã na Inglaterra, alguém fez um apelo para que os participantes guardassem os saquinhos de chá usados para doar aos missionários. No dia seguinte, por toda parte, viam-se saquinhos secando ao sol. Por que não pensaram em usar duas vezes o mesmo saquinho de chá e enviar saquinhos novos para os missionários? Em várias igrejas, tenho pedido roupas e calçados usados e literatura evangélica para ajudar os irmãos angolanos.
Muitas estão dispostas a dar, mas não a selecionar, empacotar e, muito menos, ajudar nos custos de transporte. É sempre uma feliz surpresa quando uma igreja ou pessoa prontificam-se não apenas a doar, mas também a enviar as doações.

OU O QUÊ?
Afinal, quem é o missionário? É um ser humano, pecador, que comete erros, mas que foi salvo pela graça. É um ser humano vulnerável, que vive pressões muito maiores que as de cristãos que ficam em casa, e geralmente, têm muito menos estruturas de apoio. É um ser humano seriamente comprometido com o reino de Deus, disposto a abrir mão de muitos confortos, segurança e relacionamentos para obedecer ao seu chamado de amar e servir um povo diferente.
É um ser humano que precisa de pessoas que procurem compreendê-lo, interessar-se em seus problemas, dores, projetos, sonhos e frustrações. É um ser humano muitas vezes deslocado, desorientado, confuso, cansado, precisando de repouso, restauração de forças e amizade sincera. O que vamos fazer com ele?

* Antonia Leonora van der Meer (Tonica) foi missionária durante dez anos em Angola e agora trabalha na formação e no cuidado pastoral de missionários, no Centro Evangélico de Missões (CEM), em Viçosa, MG.